Historicamente, o Brasil é visto como um país miscigenado, e a
idéia de “raça” sempre foi algo nebuloso. Porém, desde a elaboração das
chamadas ações afirmativas, o debate em torno da questão das cotas
raciais tem ocupado mentes e corações dos dois lados.
O advogado Renato Ferreira, pesquisador do Laboratório de Políticas
Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, é um dos que
elaboraram um documento que foi entregue, em maio, ao Ministro Gilmar
Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), em defesa da
política de cotas raciais nas universidades. Ele explica que, hoje,
poucos negros conseguem chegar ao ensino superior, e cita um exemplo:
“Antes de 2004, quando as cotas foram estabelecidas na Universidade
Federal da Bahia, apenas 4% dos alunos do curso de Medicina eram negros,
enquanto que, no estado, 70% da população se declarava negra. É uma
exclusão que não se vê igual nem na África do Sul, durante o Apartheid”.
Racismo social
A professora explica que é contra a proposta de cotas raciais nas
universidades porque ela produz divisões perigosas: “Essa política exige
que o cidadão se defina perante o Estado segundo sua ‘raça’ ou sua
origem. Sabemos que toda a vez que o Estado se imiscuiu nos assuntos de
identidade dos indivíduos, obrigando-os a se definirem, o resultado foi a
produção da violência.”
Renato Ferreira defende que a idéia de raça nos projetos de ações
afirmativas não tem sentido biológico: “A ciência já comprovou que somos
todos de uma só raça, a humana. Mas quando falamos em cota racial,
estamos nos referindo a uma visão das Ciências Sociais que, durante
muito tempo, usou o conceito de raça da Biologia para discriminar as
pessoas. Fizeram isso com os judeus, negros, ciganos, indígenas. Quando
surgem ações afirmativas, é preciso pensar que a raça está presente na
avaliação do que você aparenta ser. É um conceito de raça do ponto de
vista do contexto histórico-social. E é inegável que, no Brasil, é esse
tipo de racismo que os negros vêm sofrendo há séculos”.
A discussão promete se acirrar porque tramita no Congresso o projeto de lei 73/99,
que reserva 50% das vagas das universidades públicas para alunos que
fizeram o ensino médio em escolas públicas. Dentro dessa parcela, uma
porcentagem seria destinada a alunos negros e indígenas, de acordo com a
proporção deles na população por estado. Por exemplo: segundo o IBGE,
no Rio de Janeiro, 45% da população se declara negra. Portanto, 45% da
cota de 50% iriam para alunos negros. Além disso, o STF está prestes a
julgar ações contra o ProUni (Programa Universidade Para Todos), que
oferece bolsas em universidades particulares a estudantes de baixa renda
e, também, reserva vagas aos que se declaram negros, pardos ou
indígenas. O Ministro Ayres Brito chegou a declarar-se a favor das cotas
por defender que “a verdadeira igualdade é tratar igualmente os iguais e
desigualmente os desiguais”.
Para Yvonne Maggie, projetos como esse são inconstitucionais, pois
dividem a sociedade brasileira — para efeito de distribuição de direitos
— em brancos e negros. Ela afirma que uma frase como essa poderá nos
assombrar no futuro: “Quando se fala em ‘tratar desigualmente os
desiguais’ o jurista está, em princípio, falando em desigualdades
superáveis como aquelas que dividem pobres e ricos. Deve-se tratar
desigualmente os que têm menos, os pobres, para que deixem de ser
pobres. Mas a frase usada no sentido dos marcadores raciais significa
perpetuar e fundar uma identidade racial que, ao contrário da pobreza,
não é algo que se possa descartar depois de ter sido imposta pelo
Estado. Pobres deixarão de ser pobres e esse é o objetivo do tratamento
diferencial. Mas quem deixará de ser negro depois de ser obrigado a
assim se definir para ser merecedor de um direito?” Yvonne e mais 130
intelectuais também entregaram, em maio, um documento ao Ministro Gilmar
Mendes condenando a política de cotas raciais, a “Carta de Cento e Treze Cidadãos anti-racistas contra as leis raciais“.
Desigualdade educacional
Por outro lado, o advogado Renato Ferreira defende que o Brasil precisa encarar a questão da desigualdade sob o ponto de vista racial, sim: “Até 1970, 90% dos negros eram analfabetos, porque, após a abolição da escravidão, o Estado os abandonou, ao contrário do que fez com os imigrantes, que foram financiados pelo governo para virem para o Brasil. O país precisa dar um valor à diversidade étnica, de gênero etc entre os espaços de poder político, cultural e econômico. A saída é a educação pública de qualidade e políticas temporárias de ações afirmativas, que diminuem a grande distância que ainda existe entre brancos e negros no país.”
Por outro lado, o advogado Renato Ferreira defende que o Brasil precisa encarar a questão da desigualdade sob o ponto de vista racial, sim: “Até 1970, 90% dos negros eram analfabetos, porque, após a abolição da escravidão, o Estado os abandonou, ao contrário do que fez com os imigrantes, que foram financiados pelo governo para virem para o Brasil. O país precisa dar um valor à diversidade étnica, de gênero etc entre os espaços de poder político, cultural e econômico. A saída é a educação pública de qualidade e políticas temporárias de ações afirmativas, que diminuem a grande distância que ainda existe entre brancos e negros no país.”
As políticas de cotas são um remédio errado para um diagnóstico
falso, segundo Yvonne Maggie. Segundo sua análise, o problema é que as
universidades públicas precisam democratizar o acesso e, para isso,
deve-se mudar a forma de ensinar e buscar uma educação de massa de
qualidade desde o ensino básico: “A Universidade de Buenos Aires tem
cerca de 300 mil estudantes. Ela sozinha atende, portanto, mais da
metade do número de estudantes que estudam na totalidade das
universidades públicas no Brasil. Isso é um dado que não se discute
porque significa que nossas universidades públicas não querem mais
alunos, não querem enfrentar a democratização do acesso.”
Apesar de defenderem visões opostas, ambos os especialistas concordam
numa coisa: O Brasil tem uma sociedade tolerante que pode e deve ser
exemplo de democracia.
“Gilberto Freyre disse que ninguém liberta ninguém e ninguém se
liberta sozinho. A gente só se liberta pela comunhão. Se promovermos
ações afirmativas em comunhão, todos sairão ganhando. Ter essa
diversidade como um valor nosso é a principal vantagem da política de
cotas”, defende Renato Ferreira.
Yvonne Maggie, por sua vez, argumenta que não devemos abandonar o
princípio de universalidade de direitos: “Se não seguirmos uma lógica
razoável de pensar e viver com base nos princípios universais não
seremos uma sociedade justa e igualitária. São esses princípios que
fazem com que o Brasil possa se tornar um país que ensina ao mundo que
há um caminho a seguir, o caminho da democracia, da igualdade de todos
diante das leis.”
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